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ENTREVISTA com WALDIR
GREC - CONVÊNIOS E CREDENCIAMENTOS
Extraído do Jornal do CFO - Rio de Janeiro, ANO VII - No
27, janeiro/99
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Em entrevista ao CFO, o
Mestre em Odontologia Legal Dr. Waldir Grec respondeu às seguintes perguntas:
O que o levou a pesquisar o tema convênios
e credenciamentos"?
Muitos cirurgiões-dentistas
estão se credenciando a convênios e planos de saúde a valores muito baixos, como se
não houvesse outra opção. Como o senhor vê isso, tendo como base sua pesquisa?
Na balança dos convênios e
credenciamentos, quem sai ganhando: os prós ou os contras?
Quantas empresas atuam nessa
área hoje no Brasil?
E quanto ao número de
usuários, há estatística?
Que tipo de atendimento
odontológico os planos de saúde cobrem?
E como são as tabelas desses
convênios?
Mas é possível comparar o ganho
bruto e o salário real de um cirurgião-dentista credenciado?
E a lei criada pelo governo
federal, que estabelece regras para os planos de saúde? Será que ela pega?
O que o cirurgião-dentista ganha
com isso?
Apostando numa
nova relação com convênios e credenciamentos
Dr.
Waldir Grec, Dir. Sec. do CRO-SP
Mestre em Odontologia Legal e Deontologia pela
FOP/UNICAMP
Doutorando em Odontologia Legal pela FOP/UNICAMP |

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Waldir Grec,
atual Diretor Secretário do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo, pesquisa, há
quatro anos, um assunto muito caro aos cirurgiões-dentistas. Caro porque tem exigido,
freqüentemente, um preço alto dos profissionais de odontologia. Estamos falando dos
convênios e credenciamentos. Grec, que em 1998 assumiu a presidência da Comissão de
Convênios e Credenciamentos do CRO-SP, defendeu, ano passado, na Faculdade de Odontologia
de Piracicaba-Unicamp, tese de mestrado sobre o tema, sob o título Honorários
Odontológicos aspectos éticos e legais. Prepara-se agora para defender o
mesmo estudo em tese de doutorado. Odonto-legista, que exerce também a Deontologia,
Waldir Grec pretende aguardar um pouco mais antes de transformar sua tese em livro. É que
se publicá-la agora corre o risco de lançar material desatualizado. O motivo da cautela
é a Lei 9.656, do Ministério da Saúde, que passou a vigorar no dia 4 de janeiro e
promete dar uma reviravolta na questão dos convênios e credenciamentos. Dessa vez, a
favor dos cirurgiões-dentistas. Nesta entrevista, Waldir Grec explica por quê.
 O que o levou a pesquisar o
tema convênios e credenciamentos?
Eu estudo o assunto há quatro
anos em função de uma tese de mestrado que apresentei ano passado na FOP-Unicamp, e é
agora motivo também de uma tese de doutorado na mesma faculdade. Com essa pesquisa, eu
fiz um levantamento a respeito dos convênios e das operadoras de seguros. Através de
seus contratos, guias de orientação e tabelas, aos quais tive acesso, compilei essas
tabelas de repasse para o cirurgião-dentista. A partir daí comecei a comparar, usando
valores absolutos e valores subjetivos, como tempo de pagamento, a forma como o
cirurgião-dentista é tratado, etc., para tentar mapear essa área de mercado.
Muitos cirurgiões-dentistas estão se credenciando a
convênios e planos de saúde a valores muito baixos, como se não houvesse outra opção.
Como o senhor vê isso, tendo como base sua pesquisa?
O mercado odontológico hoje, como
todos os outros, está em crise. A nação está em crise, a população não tem
dinheiro... A própria odontologia, a boa odontologia, é onerosa. Somando-se a isso temos
um número alto e mal distribuído de cirurgiões-dentistas, com uma enorme concentração
nos grandes centros urbanos, fazendo com que haja uma intensa concorrência. Ou seja, os
cirurgiões-dentistas se vêem com grandes lacunas no seu orçamento, o que obriga-os a se
submeterem a esses convênios com valores vis.
Na balança dos convênios e credenciamentos, quem sai
ganhando: os prós ou os contras?
Tirando-se alguns poucos
convênios, algumas honrosas exceções, a grande maioria dos convênios são
constituídos por empresários, e não profissionais da área de saúde, que visam única
e exclusivamente o lucro. E realmente obtêm uma margem de lucro muito grande, cobrando um
valor alto das empresas e repassando valores ínfimos para os profissionais.
Quantas empresas atuam nessa área hoje no Brasil?
Esse número o próprio
Ministério da Saúde não sabe com exatidão. O último número concreto que nós temos
é 1.740, que é o número de empresas registradas. Pela minha estatística, são 2.250,
pois ainda existem muitas empresas na ilegalidade. Até onde a gente levantou, utilizando
várias fontes, eu posso afirmar o seguinte: temos no mínimo 50 grandes empresas no
Brasil. Eu chamo de grande empresa aquela que tem no mínimo 20 mil usuários.
E assim vai caindo, até chegar a empresas com mil usuários e aquelas que eu chamo de
inócuas, com menos de mil usuários. Uma empresa que faz convênio, que tenha menos de
mil usuários, não vai resistir, tem seis meses de vida, um ano, na melhor das
hipóteses. Elas eqüivalem à metade do que existe hoje no mercado. Pois essas empresas
vão desaparecer. A tendência é assistirmos ao seguinte: um grande número de empresas
com pequeno número de usuários, e um pequeno número de empresas com grande número de
usuários.
E quanto ao número de usuários, há estatística?
Segundo dados oficiais, em 1994
nós tínhamos 2 milhões de usuários de odontologia no país, ou seja, dois milhões de
bocas seguradas girando um mercado de 85 milhões de reais. No ano seguinte isso aumentou
cerca de 50%, dobrando o faturamento. Um ano depois, esse número aumentou mais 50%.
Seguindo essa tendência, em 1999 teremos por volta de 20 milhões de usuários e algo em
torno de 1 bilhão de reais de faturamento por parte das empresas. A estimativa é de que
até 2002 nós tenhamos toda a população brasileira coberta por planos de saúde.
Que tipo de atendimento odontológico os planos de saúde
cobrem?
De acordo com as estatísticas,
50% dos atendimentos são restaurações de amálgama e de resina. Agora, quanto essas
empresas glosam? O problema está aí. Em média, as empresas glosam 3% dos serviços
realizados pelos cirurgiões-dentistas. O que quer dizer glosar? É você
executar o serviço e a empresa, alegando motivo administrativo, burocrático ou técnico,
considerar que você não merece receber aquele dinheiro. Até hoje, quem impunha as
regras eram elas. Se você não concordasse, ganhava um pé no traseiro.
E como são as tabelas desses convênios?
Esse é um ponto importante. Os
colegas precisam ficar atentos. Na realidade, o que existe é uma confusão de
nomenclaturas entre as tabelas. Cada empresa faz a sua, produzindo uma confusão violenta.
Usam palavras com sinônimos e antônimos incorretos, assim como as definições e a
terminologia. Algumas pagam em Real, outras pagam usando índices econômicos. Ou seja,
fazem uma confusão tal que dificulta até a comparação.
Mas é possível comparar o ganho bruto e o salário real de
um cirurgião-dentista credenciado?
É. Eu pesquisei a diferença
entre o ganho bruto e o salário real e vi que ela é enorme. O plano paga pelo serviço,
tudo bem, mas desse valor o cirurgião-dentista precisa tirar o dinheiro do assistente, do
material, da luz, da radiografia, ele tira tudo que é necessário para manter seu
consultório odontológico. Então a defasagem é muito grande, diferentemente da
situação do médico, que recebe valores discriminados, incluindo o de sua mão-de-obra.
Aí alguém vem e diz: Poxa, mas o médico, em uma consulta de uma hora ganha 50
reais, e o dentista, pelo mesmo tempo ganha 200 reais, quatro vezes mais que o
médico. Isso é mentira! O cirurgião-dentista ganha dez vezes menos que o médico!
Porque o médico ganha o dinheiro dele, põe no bolso e vai embora. O dentista não, ele
tem que tirar um monte de custos daí. Esse ganho, portanto, é ilusório, muito
ilusório. Com essa minha pesquisa, que virou tese de mestrado, eu provo isso tudo. Eu
criei um ranking que mostra quanto o cirurgião-dentista ganha, de acordo com cada
empresa, até chegar a uma empresa onde, com o mesmo pacote de serviços e tendo os mesmos
gastos, o profissional está na verdade pagando 1.500 reais para trabalhar.
E a lei criada pelo governo federal, que estabelece regras para os
planos de saúde? Será que ela pega?
Essa Lei, a 9.656, define o que é
operadora, seguradora, auto-gestão e cooperativa. Ela estabelece resolução sobre
fiscalização, prazos. Outro ponto fundamental: as empresas que trabalharem com
odontologia são, a partir de agora, obrigadas a serem registradas nos Conselhos Regionais
de Odontologia. Com isso, nós cirurgiões-dentistas temos poder fiscalizatório sobre
elas, definido não só por Resolução do CFO, mas também por uma Lei federal. A partir
do dia 4 de janeiro de 1999, quando começou a vigorar a Lei, a empresa que não for
registrada está na ilegalidade. Aliás, o cirurgião-dentista que estiver vinculado a
essa empresa estará na ilegalidade e poderá ser punido.
Nesse novo contexto, as pequenas
empresas estão com os dias contados. Porque agora elas vão ter que obedecer regras. E as
grandes vão ter que diminuir a margem de lucro.
Respondendo à sua pergunta: essa
Lei tem tudo para pegar.
O que o cirurgião-dentista ganha com isso?
Antes, a empresa glosava o
serviço mas ele não podia se defender, já que as empresas não eram registradas nos
Conselhos. Agora, não. A Lei é clara: se o cirurgião-dentista se sentir lesado, ele vai
no Conselho de Odontologia e denuncia. A Lei prevê multas de 5 mil até 50 mil reais, e
inclui o cancelamento do registro de funcionamento da empresa.
Com essa Lei, os consumidores
ganham e os cirurgiões-dentistas também. As empresas não poderão mais propor tabelas
irrisórias, nem limitar a atuação do cirurgião-dentista. Agora, existe uma série de
mecanismos que garante a qualidade do atendimento.
Os profissionais de odontologia
podem consultar, na home page do CFO (www.cfo.org.br),
a Lei 9.656, do Ministério da Saúde, incluindo a Resolução nº 3, que dispõe
sobre a fiscalização da atuação das operadoras de planos e seguros privados de
assistência à saúde.
Extraído do Jornal do CFO - Rio de Janeiro, ANO VII - No
27, janeiro/99
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